Equinócio de Outono

Celebrando Brigântia, como Brites de Almeida, a Grande Padeira

Mabon é o festival da Mãe Terra, direcção Oeste, quando celebramos a abundância da terra ao terminarmos as segundas colheitas. No nosso território, a natureza apresenta-se agora abundante e generosa, repleta de suculentos frutos e legumes, prontos para serem colhidos e conservados para o ano inteiro. Nas árvores, entretanto, as folhas velhas caem e toda a natureza se prepara para o merecido repouso. Esta é a altura ideal para honramos a manifestação, na natureza e na nossa vida, e desta forma também para avaliarmos a nossa capacidade de materializar os nossos sonhos e projectos. 

E é igualmente o grande momento de, em gratidão, honrarmos a Senhora como Guardiã e Defensora da Terra, Aquela que toma por vezes a forma duma Guerreira, quando é necessário o uso da força para a defendermos da violência e cobiça alheias. 

No nosso país temos alguns episódios em que a nossa soberania como nação foi ameaçada, nomeadamente no séc. XIV quando os nossos vizinhos quiseram anexar-nos. Por outro lado, na raia de Espanha, existe uma praça forte que sempre cumpriu uma importante função nessa defesa, Almeida, famosa também pelo seu antigo e misterioso forte militar em forma de estrela. 

Mas é em Aljubarrota que, em 1385, se trava a batalha mais decisiva para a preservação da nossa independência, e a lenda conservou aí a memória duma impressionante figura feminina à qual é atribuído um papel muito simbólico nessa defesa. 

O seu nome é Brites de Almeida, e é mais conhecida como a Padeira de Aljubarrota. Ora Brites é um teónimo, uma forma do nome Brigântia, da grande Deusa celta, o aspecto Terra da Deusa Brígida. Ela é uma Deusa da civilização, como Atena ou Minerva, que representa a Terra e que defende o seu povo. E tal como na Grécia antiga Atena defendeu o Seu povo dando-lhe a Oliveira, que produz sustento e gera riqueza, a melhor forma de garantir a segurança e a paz, também entre nós Brigântia, Brites, é referida como uma criadora de paz antes de mais quando usa como arma a pá do forno, instrumento usado na produção do alimento por excelência. E muito há a dizer sobre a alquimia do forno, visto e sentido pelas civilizações da Deusa, como nos diz Marija Gimbutas, como uma alegoria do próprio útero feminino da criação, evocando o papel da Grande Mãe criadora, provedora, cuidadora, sustentadora da Vida. 

Então, em Aljubarrota, onde se deu essa batalha, a memória desta grande Deusa nunca se perdeu, não só lá como no país inteiro, e a atestá-lo está o facto de em 1927 ter sido criada em Portugal uma colecção de selos de correio com a sua efigie. E quando nas nossas pesquisas e demandas pela Senhora da terra, nos deparamos com estampas desse género, importância e significado, onde por norma se destacam as figuras da maior relevância para a nossa história, partes da nossa alma comum, sentimo-nos como que diante duma epifania: uma divindade tutelar da nação encontrou assim forma de permanecer viva na memória do Seu povo.

Esta celebração de Mabon tem então para nós este ano um carácter muito especial. Nela iremos reparar e curar antigas feridas da terra, resultado dessa contenda que nos trouxe a Vitória – termo que evoca igualmente uma outra divindade, esta romana, semelhante a Brigântia, da qual foi até encontrada uma imagem na região de Aljubarrota, e cuja invocação encontra eco mais adiante no Mosteiro de Santa Maria da Victória. E não é Santa Maria igualmente uma referência a Brígida/Brigântia, ao Seu primeiro avatar de Deusa pagã cristianizada?

Vamos então vê-La e reconhecê-La pelo que é, a Grande Padeira Divina, o aspecto Terra da Deusa celta, Aquela que protege os limites e fronteiras do Seu povo, a nossa casa comum, usando duma arma tão significativa nas mãos duma Grande Deusa.

Inscreve-te, se queres participar neste evento único e desempenhar um papel activo no resgate da nossa Grande Deusa, Rainha da Terra.

A lista do que necessitas de trazer ser-te-á enviada após inscrição em: jardimdashesperidestemplo@gmail.com

Abençoada!

Samhain

Despedida da Senhora do Verão

Celebração

Sexta-feira, 20 de Outubro de 2023

Tomar é um dos lugares do nosso território mais profundamente ligados ao antiquíssimo culto da Grande Mãe, no seu aspecto de Deusa Dupla, Senhora do Inverno e Rainha do Verão, Trata-se duma memória especialmente viva nesta altura do ano, quando acabam os dias longos e ensolarados do Verão e o Inverno se anuncia e as mulheres e crianças de Tomar a lançarem, a 20 de Outubro, pétalas de rosas ao Nabão, numa comovente despedida da Senhora que reinou nos últimos seis meses do ano. 

As lendas de Tomar sobre a morte da Donzela Iria, levada a cabo por um pretendente rejeitado, não deixam de ecoar os mistérios de Elêusis, na Grécia antiga, e o mítico rapto de Perséfone/Proserpina, nas mitologias grega e romana, respetivamente. Na verdade, Iria, a Jovem Donzela, tem uma “morte” muito semelhante à abdução de Perséfone (ou Proserpina) por Hades (ou Plutão). A celebração deste feito na antiguidade acontecia precisamente em Outubro, época em que a semente desce à terra para se decompor, germinar e despontar na primavera – mitos agrários, cuja origem remonta a tempos áureos da cultura e espiritualidade da Deusa Mãe, embora já tingidos ou transformados pela tomada de poder patriarcal reflectida na violência de que é vítima a donzela às mãos do seu predador. 

Iria do Verão, Brígida ou Beira, navegando agora nas águas do rio da Morte, da Dissolução e da Regeneração, onde se dissolve a velha forma para que outra possa nascer, gratidão pela fartura da terra, pelo calor do teu Sol que amadureceu os frutos e trouxe convívio e alegria. Recebe as pétalas de rosas vermelhas como o sangue da vida, que te oferecemos em amor, esperança e gratidão, elas a nossa devoção por ti e a nossa confiança no processo, no regresso da vida

Convidamos-te então a vires connosco a esta bela celebração pagã embora com alguma roupagem cristã em Tomar. Ela começa com a nossa integração no grupo maior das e dos peregrinos de Tomar até ao lançar das pétalas na ponte do Nabão, para depois prosseguirmos a nossa devoção própria em lugares de poder de Tomar. Aí, após a despedida da Rainha do Verão, acolhemos em devoção a Anciã Rainha do Inverno.

O convite fica lançado para uma bela e emotiva peregrinação a Tomar, no próximo dia 20 de Outubro, uma tradição que iniciámos há alguns anos, quando a Deusa entreabriu para nós o Seu véu, deixando-nos entrever o que se esconde por trás dos Mistérios de Tomar… 

Não esqueças que é em conjunto que podemos activar a Sua energia e resgatar a Sua força e poder antigos e eternos. Abençoada! 

 

Encontro em Tomar, parque do Mercado Municipal pelas 9h30